Da minha terra

Conversa vai, conversa vem e na mesa da festinha de natal da empresa um súbito desejo de afirmar as palavras da terra (da nossa terra) frente aos costumes e linguagens de outros estados. Eu decidi que iria anotar para não esquecer... Aí vai.
Não poderia deixar de começar pela clássica “banhar”, uma palavra tão recorrente e propriamente daqui. Até onde sei, nenhum outro lugar brasileiro teve a ousadia de nos furtar esse vocábulo.
É verdade. Num verão de 35°C o maranhense insiste em não tomar banho. Não toma mesmo! Mas nem por isso cheira mal. E não, os franceses não deixaram por aqui a cultura dos perfumes fortes que poderiam dar um jeito na questão... Ao contrário! Com os portugueses aprendemos a banhar! Eu banho, tu banhas, ele banha...
Apesar de haver dissidentes que já “tomam banho” – em todos os lugares existem dissidentes, que fazer? – insistimos que nosso negócio é banhar mesmo. Três, quatro, cinco vezes ao dia! A gente gosta.
Mas se esquisitos somos nós, o que dizer de quem coloca papéis e documentos numa pasta?! Pasta a gente come ou usa pra escovar os dentes. Há a pasta para cabelo também e já me recordo das pastas para lubrificar metais. Mas pasta para papéis, de plástico e com elástico é coisa estranha! O nome mesmo é “escacela”! Lógico. Das antigas de papelão, das novas de plástico, das modernas de material sintético. Pasta é para farmácia, para self-service, para engraxates e companhia. Na livraria, por favor, diga “escacela”.
E se for às nossas sorveterias, insista: o sorvete tem que ser de “juçara”. Quem pedir sorvete de açaí será deportado para o Pará! Da mesma forma no café da manhã ou no lanche da tarde... Se quiser tapioca, tem que aguentar o pedação de bolo. Mas se for aquele enroladinho branquinho de coco ou não, com manteiga ou sem, por favor, diga “beiju”. Isso... Tão bom quanto um beijo, só que com “u” e sem melequeira de queijo, carne de sol, goiabada e outras invencionices dos tapioqueiros. O beijúúúú é até mais light.
Agora, se pisarem no seu calo, se viver algo diferente, se ficar impressionado com algo bom ou ruim, se quiser simplesmente dá um grito de felicidade ou raiva, seja regional, grite: “ééééééguas!” Não é palavrão e serve pra todas as horas. Abaixo à importação do fo** e do – altamente chulo – cara***.
O seu amigo de perto ou de longe, será “pequeno”, ainda que grande. Se for mulher, não tem problema, é “pequena” mesmo. Por que dizer “cara”? Cara é rosto, é a face. Cara, no máximo, é coisa de moeda ou introdução de música baiana (cara caramba cara caraô...).
Já aqueles que são mais que amigos, os pais e mães, nunca terão um vocativo tão curto assim, nem tão nasal como painho e mainha. Serão sempre “papai” e “mamãe”. É a medida certa! Não importa se ficar ambíguo... Não importa que acharem engraçado ver você, um marmanjo de barba feita, chamar seus progenitores de forma tão... Tão... Tão bonita!
Nas festas sociais, prepare-se para ver peruas “emperiquitadas”. E “qualhiras”, homens interessados em outros homens – um costume que, por certo, chegou de outro estado.
No mais, quando não quiser dizer nada ou quiser dizer tudo: feche a boca, faça um biquinho e diga “hum-hum...”. Se o forasteiro não compreender, dê uma chance e abra a boca com um “hem-hein...”
Escrito por Wagner às 15h47
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