Caio decide ser feliz

Ele mudou de nome. Daqui pra frente seria Caio! Um homem de pouca conversa, porém apto a conversar sobre tudo. Era possível conversar sobre tudo, tinha descoberto... Bastava deixar o outro falar, sempre, com interrupções fáticas, como dizia.
Em meio às práticas fáticas de interrupções conheceu Alonso, Vera, Adão, Ema, e Pato. O grupo de amigos era influente nas rodas político-sociais, eram bem nascidos, estudaram em bons colégios e completaram o ensino superior em faculdades públicas.
Quis o destino – talvez a perspicácia fática de Caio! – que o grupo cruzasse os caminhos do homem decidido a ser feliz. Caio logo notou que o bom relacionamento aparente entre os novos amigos era controverso, um olhar mais atento sempre identificava conflitos.
Bom ouvinte, não demorou a ser o confidente dos homens, das mulheres. Gostavam da presença dele, praticamente um adorno de luxo, mas ainda assim um alguém com personalidade.
Uma personalidade ligeira! Caio logo compreendeu que Alonso gostava de Vera, que namorava Pato, que já amou Ema, que era a namorada de Adão, que repentinamente apaixonou-se por si próprio. Ah... O amor! Pensava Caio, satisfeito por reconhecer que de fato era possível ser feliz a custa de muito amor. Ainda que fosse do amor mal resolvido dos outros.
E amor era o que não faltava no meio daquele grupo de amigos que repentinamente acolheu Caio, um cara legal, bom de papo, cheio de idéias interessantes, alguém que sabia escolher boas companhias. Caio lembrava dos gestos de cada um quando pronunciavam os elogios... Falavam de si mesmos, ele bem sabia.
Não importava. Caio estava decidido a ser feliz! E pela primeira vez o amor mudaria completamente sua vida. Um pouco de planejamento, um pouco de sorte e diversas interrupções fáticas depois - aquele papo sem propósito que servia de apoio para o papo dos outros -, Caio tornava-se um homem influente.
Ele não mandava em nada, não tinha posses interessantes, mas conseguiu a influência, que lhe deu acesso a senhas e banco de dados de casais em desalinho.
“Continuam as investigações sobre as mortes do grupo de amigos encontrados no último final de semana na casa de veraneio da empresária do ramo hoteleiro, Vera Alberine. Os especialistas, que analisaram os cinco corpos encontrados, sustentam que trata-se de crime passional”.
Ah... A influência era o consolo para o frio da Suíça, responsável pelo mal-estar concorrente com o peso na consciência de Caio. Mas ele estava feliz com a nova vida! Não eram riquezas, tratava-se apenas de um estado de poucas preocupações, como dizia para si mesmo após ter provado para Alonso, Vera, Adão, Ema e Pato que o amor, o amor de fato, era para os corações fáticos.
Escrito por Wagner às 00h44
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