Nada lhes restou

Fim de novela sobre escravidão é algo que emociona os corações mais escarpados. A última cena mostrava os negros, caminhando felizes, por um caminho de terra rumo a qualquer lugar diferente da fazenda de agressões pela qual por anos padeceram.
Na cena final, nenhuma fala. Somente sorrisos alvos na tez escura e uma frase na tela:
“E de tudo o que plantaram, nada lhes restou. Nem da terra, nem dos frutos, apenas a liberdade”.
Triste. Mas há uma verdade: nada mais caro que a liberdade. Nem as terras, nem os frutos. Nem mesmo a posse de outros bens ou oportunidades, nem elas seriam mais caras que a liberdade.
A liberdade, para mim, é saber quem somos: nem a terra, nem os frutos. É saber que podemos ter muitas coisas, mas que não somos coisa alguma do que possuímos ou sonhamos ter.
Liberdade é ausência de possessões, ainda que as posses existam.
"E de tudo o que plantaram, nada lhes restou. Nem da terra, nem dos frutos, apenas a liberdade".
Escrito por Wagner às 19h51
[]
[envie esta mensagem]

(re)Partida
Nove e vinte e seis, um minuto a mais do que o horário previsto, ele anotava na caderneta. Era o momento exato do embarque para a Austrália, um lugar verde-amarelo - que nem o Brasil, pensava.
Apertou o cinto, olhou pela janelinha e lembrou da vida que deixava lá embaixo, enquanto o avião levantava vôo. E as pessoas em sua volta, nas cadeiras ao lado, o que será que elas deixavam? Todo mundo deixa algo quando parte, imaginou.
Ele deixava quase tudo. Na bagagem de mão, uma foto da família e do cachorro. Uma foto para colocar em algum porta-retrato, no novo mundo que desejava encontrar. E tinha que ser um porta-retrato sobre algum móvel na sala, porque assim era o costume, um dos poucos que não abriria mão.
O mais difícil na partida foi tomar a decisão de avisar uma minoria. Um punhado de essenciais, como disse para si mesmo ao escovar os dentes na noite anterior à viagem. Tratava-se da família, dois ou três amigos de perto e um amigo de longe. Na verdade pensou primeiro no de longe, mas o importante é que sabia, aos 23, definir bem seu punhado de essenciais, sem peso na consciência que tantas vezes o acusava de algum tipo de "apartheid".
Lembrava da luz de sua cidade. Da cidade que por quatro anos não veria mais, como previam seus planos. Não sabia ao certo, mas a cidade também era essencial! Algum dia compreenderia, por enquanto dizia para si algo sobre a luz densa e sóbria da cidade.
A vida era feita de capítulos, temporadas, contos. Era algo que tinha no riso sincero: a vida era feita de capítulos... E agora, suspenso no ar, a sensação era a de que estava no meio de um intervalo ou no prefácio bom das próximas histórias que viveria.
Durante a despedida, no aeroporto, ganhou uma caixa de dezoito bombons recheados, um agasalho e um rosto umidecido pelas lágrimas daqueles que se despediam. Saudades de quem ficava. Ele também, ao seu modo, sentia saudades. Saudades conceituais, com licença poética, como quase todos os pensamentos que surgiam na hora da despedida.
Quando o avião chegou ao destino, chovia. No aeroporto todos andavam apressados, enquanto ele tentava absorver os novos espaços, de gente que decididamente não exercia muito de licença poética e menos ainda compreenderia o que são saudades conceituais. Achou graça dos próprios pensamentos, mas não se deteve muito em observações.
De malas em mãos, procurou um telefone para avisar a um contato que estava no aeroporto. No outro lado uma voz amistosa, alguém prestativo, acostumado a recepcionar estrangeiros. Agora, era apenas isso: um estrangeiro. Mas desejava sê-lo por pouco tempo. "Enquanto a chuva durasse", comentou olhando uma janela de vidro, iluminada, por onde a água da chuva desenhava qualquer coisa.
Já no carro, na companhia do jovem que lhe recebia, uma certeza de novas incertezas. Um sentido familiar, pelo menos, acreditava.
A chuva caía em outra temporada.
Escrito por Wagner às 11h52
[]
[envie esta mensagem]

Dissimulação e respeito

Quando um grupo de amigos fala sobre política e levantam todas as opiniões que *não* são importantes para você, há algumas alternativas:
1) Você comenta as opiniões e encena uma indignação clichê sobre o quadro político atual do país, porque, afinal, ficar calado poderia soar como desinteresse e isso (ainda que sincero) não pega bem.
2) Você lamenta a perda de tempo dos seus amigos por discutirem algo que se ouviria em qualquer programa popular de auditório. Mas, apesar disso, tomaria partido de alguma opinião para ser entrosado. Porque, afinal, ficar calado pode soar como desinteresse e isto (ainda que sincero) não pega bem.
3) Você pensaria na sua vida e se questionaria como chegou a esse ponto de achar que tudo o que está sendo dito é uma reprise de slogans que aumentam o poder simbólico do sistema político-partidário vigente, tão longe do seu ideal de política: aquele que favoreça a moral da sociedade e que não exija do cidadão nenhuma espécie de “consciência” ideológica obrigando-o a diminuir o pouco tempo que ele já tem para a família e outras coisas realmente importante.
E depois de uma rápida respiração você pega a próxima batatinha frita sobre a mesa e faz cara de que está muito interessado na conversa da vez.
Dissimulação e respeito são viáveis somente com essa última opção. Sim, porque, para bem viver: dissimular é preciso. Desde que não comprometa o respeito para com os demais...
Dissimular não é mentir. É optar por um desligamento de uma realidade entupida de batatas fritas por toda parte. Dissimular é comer as batatas reais enquanto os demais comem as batatas ideológicas, sem ao menos saber se possuem ou não gordura trans.
Dissimular, no entanto, só até a chegada do tempo propício para o que realmente importa, mesmo que se corra o risco de ver tudo virar batata outra vez.
Uh... Lapsos de sanidade... Detesto!
Escrito por Wagner às 03h10
[]
[envie esta mensagem]

|