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Vinte Ver
 


Sofrer como profetas

 

Sofremos todos mas, diferentemente de certos poetas, podemos escolher outros caminhos para nossa dor. Há poetas que lamentam e até parece lindo, mas é só lamentação... Não aspiremos a tal fardo. Sim, deve ser um fardo ser poeta que vive de dores ou finge tê-las para molhar o papel e emocionar o leitor.

 

Poetas da dor são tolos. Conheço alguns que morreram, aparentemente, frustrados! “Dói, dói, dói, mas é lindo”. Pode até ser assim no papel, na vida é que não é. Fora das margens que falam de uma dor imaginada com excessos, há uma necessidade de combater queixas, caso contrário é difícil viver.

 

Os profetas sabem disso! E, na dor, não têm auto-compaixão. Não vivem como poetas de dores, que buscam consolo nas fraquezas da alma. Profetas sofrem com humor sereno e assim olham para o trágico sem se deixarem consumir.

 

Os poetas – de dores ou não! – deveriam conhecer o humor, próprio de quem é amigo da esperança. Se conhecessem, eles sofreriam sem as queixas de auto-compaixão e quando quisessem disfarçar não recorreriam ao pensamento positivo, mas fariam como profetas: falariam da esperança e poderiam ver que o fardo da vida, na verdade, é leve.

 

É claro que lamentar é parte da condição humana. Mas falta à lamentação de certos poetas a esperança das revelações e do testemunho dos profetas.

 

Anuncia isto: o sofrimento não nos deixará, mas você pode escolher se vai lidar com ele como fazem poetas da dor ou como fazem os profetas. Aqueles lamentam com auto-compaixão; estes, quando lamentam, o fazem com sobriedade e às vezes esquecem que sofrem, ainda quando lêem uma poesia que “dói, dói, dói, mas é linda”!

 

Os profetas viverão para sempre porque vivem em quem traz o dom esperança: o Espírito Santo de Deus.

 

“Senhor, quero ser profeta e, na dor, viver esperança!

Por isso, peço que envies sobre mim o teu Espírito.

E que ele vença toda auto-compaixão que há em mim.

 

Espírito Santo de Deus, lança fora a suposta beleza da dor

Que insiste em esvaziar-me de esperança.

Espírito Santo de Deus, revigora minhas feições!

 

Tome meus sentidos e não deixe que eu perca de vista os milagres

Alcançados por uma cruz de dores.

 

Espírito de Deus, dá-me bom-humor para, no sofrimento, reconhecer que belo

Belo de verdade, é viver em ti, para ti e contigo!

 

Amém!”



Escrito por Wagner às 14h28
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Pensa-me!



Ah! Sofremos todos. Os bons, os maus e os arrependidos! Uma história antiga de três cruzes: um homem honesto, um ladrão confesso – desesperançado - e um desonesto arrependido. É aquela história: o bom, o mal e o arrependido. No final das contas, a dor.



Quando era pequeno tomava “Elixir Paregórico”. Bastava doer a barriga... “PAAAAI!” Trinta gotas, às vezes quarenta, uma massagem e pronto. Sem dor. O tempo passou, o tal elixir foi proibido até! E não tomei mais nada, ao ponto de esquecer o que era dor de barriga de fato.



Ficaram outras dores. Algumas do tempo de criança! Se pudesse eu faria uma troca: essas dores pela barriga doída de antigamente. Doeria menos, tenho certeza.



Eu falei de ladrão? Pois penso em justiça, agora. Deveria existir uma justiça que punisse os ladrões da tranqüilidade alheia! Ainda que num tempo passado. Aliás... Especialmente que em tempos passado isso tenha ocorrido.



Mas a vida é agora e não há outra. O que diremos? Que sofremos todos! Alguns de barriga e outros por oportunidades perdidas - roubadas, às vezes.



Seria triste. E é. Mas não será para sempre! Para os que crerem... Não será para sempre!



Oséias:



“Vinde, voltemos ao Senhor, ele feriu-nos, ele nos curará; ele causou a ferida, ele a pensará.



Dar-nos-á de novo a vida em dois dias; ao terceiro dia levantar-nos-á, e viveremos em sua presença.



Apliquemo-nos a conhecer o Senhor; sua vinda é certa como a da aurora; ele virá a nós como a chuva, como a chuva da primavera que irriga a terra.



Que te farei, Efraim? Que te farei, Judá? Vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho que logo se dissipa.



Por isso é que os castiguei pelos profetas, e os matei pelas palavras de minha boca, e meu juízo resplandece como o relâmpago, porque eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos. Mas eles violaram vergonhosamente a aliança e traíram-me.



Galaad é uma cidade de malfeitores, cheia de traços de sangue; os bandidos são a força dela, uma quadrilha de sacerdotes; assassinam no caminho de Siquém, porque seu proceder é criminoso.



Vi horrores na casa de Israel: ali cresce a prostituição de Efraim, ali se mancha Israel.



Apesar de tudo, Judá há de ter boa colheita, quando eu restaurar o meu povo, quando eu curar Israel.” (6, 1-11)



Escrito por Wagner às 22h28
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Amar o amaro

Revista Veja, 28 de junho, 2006

Ponto de Vista

Ensaio sobre a amizade

"Nesta página, hoje, sem razão especial
nem data
marcada, estou homenageando
aqueles que têm estado comigo seja
como for, para
o que der e vier"

Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quem pretende um relacionamento? Perguntou-me o jovem jornalista, e lhe respondi: aquelas que se esperaria do melhor amigo. O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vão além da amizade. Mas a base estaria ali: na confiança, na alegria de estar junto, no respeito, na admiração. Na tranqüilidade. Em não poder imaginar a vida sem aquela pessoa. Em algo além de todos os nossos limites e desastres.

Atômica Studio


Talvez seja um bom critério. Não digo de escolha, pois amor é instinto e intuição, mas uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para ser feliz ou para se destruir. Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu. Falo daquela pessoa para quem posso telefonar, não importa onde ela esteja nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: "Estou mal, preciso de você". E ele ou ela estará comigo pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.

Mais reservada do que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e poucas, mas reais, amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar. Sem elas, eu provavelmente nem estaria aqui. Falo daquelas amizades para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida. Para eles não sou escritora, muito menos conhecida de público algum: sou gente.

A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele mas sem o ônus do ciúme – o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação nenhuma. Amiga é aquela a quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair para pegar as crianças na chuva: a amiga vai, e pega junto com as dela ou até mesmo se nem tem criança naquele colégio.

Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se angustia demais, e ele chega confortando, chamando de "minha gatona" mesmo que a gente esteja um trapo. Amigo, amiga, é um dom incrível, isso eu soube desde cedo, e não viveria sem eles. Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos: "Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta". O marido morreu, os filhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada como se o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais de uma vez se queixou, e nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados com... amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças quando não lhes faltam nem luz nem espaço nem afeto.

Quando em certo período o destino havia aparentemente tirado de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo, foram amigos, amigas, e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos, que seguraram as pontas. E eram pontas ásperas aquelas. Agüentei, persisti, e continuei amando a vida, as pessoas e a mim mesma (como meu amado amigo Erico Verissimo, "eu me amo mas não me admiro") o suficiente para não ficar amarga. Pois, além de acreditar no mistério de tudo o que nos acontece, eu tinha aqueles amigos. Com eles, sem grandes conversas nem palavras explícitas, aprendi solidariedade, simplicidade, honestidade, e carinho.

Nesta página, hoje, sem razão especial nem data marcada, estou homenageando aqueles, aquelas, que têm estado comigo seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estou cansada, estou burra, estou irritada ou desatinada, pois às vezes eu sou tudo isso, ah!, sim. E o bom mesmo é que na amizade, se verdadeira, a gente não precisa se sacrificar nem compreender nem perdoar nem fazer malabarismos sexuais nem inventar desculpas nem esconder rugas ou tristezas. A gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo. Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna; ele nos agüenta e nos chama, nos dá impulso e abrigo, e nos faz ser melhores: como o verdadeiro amor.

Lya Luft é escritora



Escrito por Wagner às 19h54
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