| |
TV Calçada

Baseado em fatos reais. :)
Depois de aproximadamente cinco anos de relutância, ela aproveitou as férias e cedeu aos pensamentos que tinha antes de deitar: uma câmera pequena, nem tão discreta como imaginara; a imagem, digital, perfeita. “É só isso... Está instalada. Agora é só manuntenção...” comentava o técnico expulsando com a ponta dos dedos o suor da testa. “Agora temos segurança. Obrigada meu Deus!” comemorou a dona da casa, com olhos fixos na tv até então “da filha”, mas que a partir daquele dia seria também a “da câmera”, a TV Calçada com transmissões ao vivo direto do lado de fora da residência.
Na primeira casa com câmera de vigilância da rua havia um misto de alegria e apatia. O sonho do controle extra-muros fora concretizado mas nada de mais parecia acontecer na telinha. Algumas borboletas e passarinhos passavam rápido bem perto da lente, às vezes as formigas. Na calçada a manhã de sábado e alguns carros na avenida – era uma casa de canto.
A primeira transmissão da TV Calçada foi tranqüila, sem a ação ou o suspense que invadiam o travesseiro da dona de casa em noites de barulhos estranhos, de objetos desaparecidos no terraço e pegadas no muro. Lá estava ela, sentada na cadeira giratória do escritório improvisado, pernas esticadas num banquinho e olhos na telinha. “Mãe, meu namorado está vindo... Vou tomar banho, abre a porta pra ele?” nos dias AC (antes da câmera) esse seria um pedido sem desdobramentos instigantes, mas naquela manhã serviu como inspiração.
O namorado chegou e a dona da casa estava ali, sentada, sorrindo. “Filha... Vamos deixar ele tocar mais um pouquinho. Vamos ver a reação... Essa vai ser boa, hein?” A filha estranhou, mas a imagem era tão colorida e o ângulo inédito... Topou. As duas se divertiram no que se tornava a primeira imagem do namorado no portão. E como o rapaz era paciente: nenhuma careta, nenhum gesto de insastifação e tudo alimentava o ibope da transmissão. Bastou três toque no interfone e a porta abriu. Na tv um “até logo” do rapaz para o irmão abnegado que lhe trouxe e só... O beijo no portão não aconteceu.
À noite, quando algumas vezes apareceram as pegadas no muro, a imagem parecia um negativo borrado. Só as luzes dos carros apareciam bem... Logo no horário nobre, de emoções e ruídos.. A dona da casa ficou decepcionada e desligou a tv.
É... A programação local é ainda menos interessante.
Escrito por Wagner às 01h06
[]
[envie esta mensagem]

|
|
|