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Casa de Espelhos

Hoje não quero ser lido. “Façamos um minuto de silêncio...”, o meu silêncio. Hoje não quero releituras dos meus passos e pensamentos. “Deixe-me no meio da multidão”, eu disse isso primeiro em algum lugar. “Qual lugar?” Qual meu lugar? “O seu lugar na multidão...” Eu o quero encontrar, mas não direi porque já não quero ser achado. “Desça daí, quero te ver...” Para fazer releituras de mim? Não... Deixe-me nesses pensamentos aqui em cima. “Existem motivos nos seus cabelos pintados, no seu andar engraçado, no seu pouco falar... Vamos ler tudo isso e o resto.” Mas se eu fechar meu livro de pensamentos e calar idéias literárias? E se correr ao longe, a perder de vista, estarei de volta à multidão. “Somos todos animais, você só precisa de alguém, é um instinto... Está nos seus cabelos pintados, no seu andar engraçado, no s...” Não. Afastai-vos de mim porque nada sabeis dos fios de meus cabelos, nem das pegadas deixadas na areia deserta ou do meu tempo para criar. “Já vejo a relva verde sob seu corpo deitado... Ou a bicicleta na estrada sem fim.” De ventos nos meus braços abertos? “E suaves no rosto que ri de olhos fechados...” E o que digo? O que sabes de mim? “Um minuto de silêncio...” O que vês? Vamos! Diga. Diga pra mim... Sei que está aí. Alguém aí? Ei... Hoje não quero ser lido. Meu lugar na multidão. Relva verde. Estrada sem fim. “Que rostinho bonito. E que bobagem. Sei que está aí... Sai debaixo dessa mesa ou não vai mais crescer! Existe um mundo inteiro para conhecer, reconhecer...” Há boa vista daqui de baixo... E não haverá releituras aqui. Nem olhares curiosos ou pensamentos sobre mim. “Só por hoje?” Só por hoje. Hoje não quero ser lido... “Façamos um minuto de silêncio”.
Escrito por Wagner às 01h35
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