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Conto de Natal



Luzinhas de Natal

Em todos os natais Alessandra ficava atenta às luzinhas que brilhavam enquanto as crianças abriam presentes nas casas. Gostava em especial da ceia e às vezes participava, em pensamentos, da oração que via as famílias recitarem, pelas janelas de vidro que separavam as celebrações da rua em que a menina morava com a mãe e dois irmãozinhos, num barraco de papelão.

“Minha filha, você já fez sua cartinha ao Papai Noel? Não esqueça de dizer que mudamos de rua, hein?”, dizia a mãe de Alessandra, entre um pigarro e outro, na véspera do Natal ao tentar disfarçar a dura realidade que viviam. A menina não demorou em terminar o desenho e dobrou o papel, sem ligar para a mãe que insistia em ver o pedido.

Alessandra nunca teve seu pedido atendido nas vezes que deixou a mãe entregar cartinha ao Papai Noel e por isso nessa noite decidiu que entregaria, ela mesma, a cartinha ao bom velhinho. A menina colocou o vestidinho de remendos que achava mais bonito, ajeitou o lenço na cabeça, fez o sinal da cruz e saiu de casa.

Depois de andar um pouco, entrou sem ser percebida no shopping da cidade e viu de longe um senhor sentado numa cadeira bem decorada onde na frente se organizava uma longa fila de crianças. Alessandra procurou seu lugar, trazia a cartinha junto ao peito e nem percebia os olhares desconfiados que alguns lançavam sobre ela.

“Ei, menina, você está na fila errada... Essa aqui é para pedir um presente ao Papai Noel.”, disse uma garotinha atrás de Alessandra, mas ela nem deu bola para a garotinha ou para os outros que mais tarde sorriam ao olhar seu vestido de remendos. Quando chegou a vez dela, sentou-se no colo do velhinho e mostrou o desenho: era uma janela de vidro bem grande, localizada na frente do barraco onde moravam a mãe e os irmãos de Alessandra.

Papai Noel não entendeu nada e sorriu. Perguntou que presente ela queria e sem vacilar Alessandra disse de uma só vez: “Neste Natal quero uma janela de vidro para que as crianças do outro lado da minha rua vejam como brilham as luzinhas do olhar da minha mãe quando reza comigo e meus irmãos.”

Escrito por Wagner às 00h45
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Passos e pensamentos



Às 22h de sábado os ônibus da linha Santa Rosa, em São Luís, deixam de circular. Agora eu sei, só que antes do último sábado eu não sabia! A ignorância às vezes constrange, a minha deixou-me um pouco cansado depois que me obrigou fazer a travessia da avenida São Luís Rei de França a pé, num percurso de aproximadamente 60 minutos.

É engraçado como as palavras não comportam a experiência. Agora, escrito, parece tão simples e rápido caminhar aborrecido por uma avenida perigosa cheia de ônibus com luzes apagadas em direção à garagem, desviando de almas pedindo carona até o retorno da Cohab, onde seria possível encontrar uma condução de luzes acessas circulando normalmente em direção a minha casa.

- Tem coisas que não dá para explicar... E se alguém nos olhar a essa hora caminhando sozinhos numa avenida cheia de motéis?

- Pode ser pior... Podem nos ver mortos no chão depois que eu reagir quando um desses motoqueiros pararem perto de nós para um assalto... Você pode levar minha máquina na sua bolsa?!

Não mencionei o medo, não é? Ah... Mentes férteis um dia serão mais valorizadas.

Depois de alguns passos e dúvidas sobre a possibilidade de pegar ou não atalhos escuros e desertos... Pensei em sexo e ela em trabalho!

- Está longe do retorno ainda... Puxa! Aposto que quem faz sexo não passa por essas coisas ou se passa pelo menos depois pode aliviar a tensão. Se pensarmos bem, estamos fazendo uma loucura! Não é sensato atravessar essa avenida assim... E nos achamos tão sensatos, somos até castos e fazemos trabalhos voluntários!!

- Hum... É mesmo. Sabe... Eu estava fazendo uma análise de comunicação sobre aquele programa de TV... Acho aquele rapaz muito bobo às vezes! Ele é jornalista, não é?

- Nem jornalista, nem publicitário. Mas ele acredita que é os dois... E de repente até é! É tudo tão relativo... Como nossa sensatez!!

Era uma avenida de passos e pensamentos. E mesmo aborrecidos pensávamos em alguém divino que olhasse por nós naquela hora. Alguém no céu... E lá de cima o caminho deveria ser tão pequeno! Acredito às vezes que escrever é como olhar de cima. O desafio é conservar o tamanho natural do que parecer pequeno: a vida e suas experiências.

- Algumas mulheres te acham interessante. Eu notei que em geral garotos com títulos e funções bem desempenhadas chamam atenção... Inclusive você está namorando...

- Sim. Nos beijamos depois do filme... Estamos namorando!

- Nossa... Isso é engraçado! Você não é o primeiro que associa beijo e compromisso. Tenho uma amiga que discorda disso e ela viveu uma história engraçada...

A gente conversava para que o tempo passasse mais rápido que o cronômetro do meu celular. E não sei por qual razão falávamos de amor... Acho que é a mídia. Compramos amor o tempo todo! Nas novelas, nos produtos, no cinema... Deve ser algo de subconsciente! Daí na necessidade de focar o pensamento além das paralelas e postes frios, aparecia o amor. Mas também a filosofia!

- Eu acho que a vida tem que ser defendida. Esse Governo não acha isso... Um absurdo!

- Pois não é? Já se pergunta até o que é vida!

- E o que é vida?

- Não sei bem... Mas com certeza não depende só de ondas cerebrais. Há muitos com ondas cerebrais intensas, que não conseguem pensar nada útil e estão vivos... Pelo menos estão nas estatísticas do IBGE.

Já era quase meia-noite quando finalmente chegamos ao retorno, finalzinho da avenida. Encontramos um grupo de amigos conhecidos na parada ali perto que também chegavam de uma caminhada em outra avenida. Coincidentemente voltavam de um trabalho voluntário, religioso. Depois de tudo chegamos em casa sãos e salvos.

Acho que levamos a sério demais esse negócio de almas peregrinas. Há outros que vão achar tudo isso coisa da juventude... Incrível, mas há!

Escrito por Wagner às 00h24
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